Tuesday, August 28, 2007

Só/lidão partida

Van Gohg

Por mais que sonhe por uma
Solidão Partida...
Só encontro...
Só lidão partida
Retomo e recomeço
na minha inteira solidão.

victor

Mãos dadas

Desenho de Carlos Lyra Fonte: site abaixo.


Para mim esta poesia homenageia a vida e toda sua materialidade e possibilidades de mudanças coletivas. Não fugir é sempre importante, no mundo tão cheio de fugas programadas e não programadas. Olhar eternamente o presente, sem se afastar muito. aproveitem e visitem o site: http://www.memoriaviva.com.br/drummond/index2.htm







"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente."

Drummond

“E o que não é amor, o que existe? Palavras!”

Me pergunto se o que é o amor não passaria de palavras? Penso que as palavras são contornos que damos aos sentimentos que nos invadem. Contornos imperfeitos, é certo.

Mas que outra forma encontraríamos para dar sentido ao que não tem? Como suportar o desconhecido, o inominável que arrebata e nos prende ou seria, nos liberta?

O silêncio não é ausência das palavras, mas é o momento em que elas sucubem e reverenciam como um súdito ao seu rei. É nesse momento que o amor assumiria sua forma mais pura? Livre das significações e tentativas de contorno? Isso me levaria a crer que o amor não dura mais que milésimos de segundos...mas você poderia dizer que é atemporal. De fato, a sensação vivenciada é tão forte que ao fechar os olhos e relembrá-la percebo que a intensidade não esvaiu...Mas como garantir que não sou eu a segurá-la?

Como posso deixar escapá-la se com ela vai o meu único momento de total sensação de estar vivendo algo real? O silêncio me confunde e volto desesperadamente às palavras que me iludem em suas efêmeras certezas.

Autora: ?.

Saturday, August 18, 2007

Dialogando com o silêncio

Re-leitura da Poesia "Senão Palavras".

O tema silêncio pode ser fruto de muitas inspirações, Bachelard aborda silêncio como necessário ao processo criativo científico ou artístico, associado ao amor, vai dar algumas páginas se não livros de poesias. Imagino que o silêncio é indispensável ao amor. Se imaginarmos o amor como fruto de um processo criativo, a dois e ao mesmo tempo solitário, é necessário alguns momentos de silêncio para se construir o amor.
O que se pergunta é sobre o amor, e não o silêncio, é o amor o silêncio? Ou é o amor as palavras? Na minha poesia percorro por caminhos incertos para revelar de forma abrupta no final que o amor é o silêncio, negando a poesia inteira que afirma que é a palavra. Não é uma negação total, são dois momentos diferentes, o trivial vive as palavras, mas o transcendente vive o silêncio.
Na realização do amor se quebra ou se permanece o silêncio? Talvez o que gostaria de dizer é que o amor é o momento do silêncio, tudo depois é o amor em palavras. A palavra nunca trará a essência, pois é viciada...poderia dizer que o amor é a voz do silencio, mas a palavra não consegue ser a voz do amor; é sempre insuficiente, por isso se fala tanto, ou se pensa, a palavra em pensamento também faz muito barulho.
A sua poesia me lembrou um livro de Pablo Neruda, chamado "Livro das Perguntas", afirma muito pouco...poderia refazé-la e colocar ela toda em pergunta, esteticamente seria interessante, já que a poesia é marcada pela incerteza da palavra. Você abordou uns pontos centrais do que desejava passar. E gosto da noção de silêncio, não como uma oposição ou ausência de palavras, mas integradora da palavra, é muito mais digno o silêncio que a palavra, que se submete e se rende ao silêncio, poderia dizer que se rende ao amor, mesmo no instante (que é outra possibilidade de tema, o instante, o momento, o tempo). Isso tudo se repete pelos sentimentos do poeta.
Para Fernando Pessoa, o silêncio na poesia "Hora absurda" parece ser inquieto, é como se o silêncio deixasse algo em suspensão e pronto para acontecer, o primeiro verso:

"O TEU SILÊNCIO é uma nau com tôdas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraiso..."

O silêncio deixa as velas infladas, mas batem as brisas que não são suficientes para dar partida a nau, o sorriso quebra o silêncio, ao mesmo tempo que permanece, mas é algo que o eleva, se finje alto e no paraíso. "Pandas" é a mesma coisa que 'infladas", e "andas" a mesma coisa que "perna de pau". A imagem da escada não seria suficiente para saber se subia ou descia colocou assim "andas" e permanecia a rima e o ritmo da estrofe, eu creio. Gosto desta visão de Pessoa.

Gostaria de afirmar este e outros diálogos contigo, aceitando ser o interlocutor da nossa poesia e da nossa psicologia, através de Drummond.

"Há tantos diálogos
Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as idéias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos"

Drummond

Friday, August 17, 2007

A Intimidade Feminina no Século XVIII em Diderot

Este é um pequeno fragmento de um artigo meu publicado na revista Ciente-fico.com, com o título supracitado "A Intimidade Feminina...". Quem tiver maiores interesses leiam na íntegra no endereço: http://www.frb.br/ciente/Textos%20CienteFico%202003.1/Psicologia/Exercícios%20Monográficos/A%20intimidade%20feminina%20do%20séc%20XVIII%20em%20Diderot.pdf .

"O interesse pela alma feminina sempre foi fonte de inspiração para poetas, literatos, e também, objeto da curiosidade filosófica e científica. Um percurso no qual tenta-se, ao final, revelar as verdades da mulher pela ciência, mas obscurece cada vez mais; talvez a mulher não precise ser pensada, mas sentida.
Este trabalho realiza uma análise de conteúdo do discurso de Denis Diderot, em 6 obras, que delinearam o tema específico – A Mulher –, e permitiu uma convivência com os ideais filosóficos iluministas. Autor do século XVIII, “Filho da Luz”, Denis Diderot apresenta-se como um agitador cultural, filósofo, romancista, teatrólogo e responsável pelo maior empreendimento cultural do século XVIII – coordenador-geral da Enciclopédia dos Iluministas 1 – retratada como o “Espírito do século XVIII”2. Este empreendimento polêmico levou Diderot a ser convidado pelas autoridades políticas e religiosas, amiúde, a passar algum tempo na prisão. Evento que não desanimou o seu espírito insurgente. A Enciclopédia negava os princípios religiosos e políticos da época, em busca de uma racionalidade do mundo, permitindo, assim, uma visão crítica e inovadora.
A princípio, a obra escolhida para observar o feminino foi Jóias Indiscretas, porém em algumas obras, observa-se, mesmo que discretamente, uma preocupação com o feminino. Então, foram escolhidos alguns livros para incursionar e investigar, possibilitando uma visão mais ampla e segura do autor, a saber: Diálogo entre D’Alembert e Diderot; O Sonho de D’Alembert; Continuação do Diálogo; Suplemento à viagem de Boungainvillet: Parodoxo sobre o comediante; Jóias Indiscretas.3 Algumas perguntas direcionam o trabalho: Quem é essa mulher de que fala Diderot? Qual o contexto histórico e intelectual (filosófico da obra)? Há uma coerência nas idéias sobre a mulher nas obras analisadas?
Michael Foucault reflete sobre o livro Jóias Indiscretas a idéia do “saber-sexo” ou “sexo-saber” do século XVIII até os dias atuais4 A perspectiva de Foucault incide mais sobre um dos personagens daquela obra, Mangogul, que lhe permite a seguinte afirmação: somos “presa de uma imensa curiosidade pelo sexo, obstinados em questioná-lo, insaciáveis a ouvi-lo”. A pesquisa presente é mais específica à identidade da mulher em Diderot, considerando seus aspectos éticos, estéticos, sexuais, orgânicos e sociais. O personagem que interessa neste estudo, nas obras de Diderot, é a mulher, mais especificamente na obra Jóias Indiscretas. Contudo, o sexo enquanto expressão de desejo e subjetividade será abordado, pois é um dos eixos que insiste Diderot ao tratar sobre a alma feminina.
Denis Diderot faz uma análise da subjetividade da mulher na sociedade como ser de desejo sexual e as várias formas de controle sexual; pensamentos que são ousados e extravagantes para o século XVIII. Pensando sobre a ética sexual ou apenas retratando-a, bem típico do Iluminismo na busca de uma nova identidade social e ética, Diderot mostrava-se solidário e atencioso para com a mulher, em vários momentos exalta a natureza feminina.
Influenciado por uma perspectiva mecanicista e organicista, justificava e explicava o comportamento humano sobre esses paradigmas. Por exemplo, a sua contribuição no que diz respeito ao desejo e ao papel sexual, chegando a afirmar que o celibato é causador de desorganização mental, tem explicações organicistas: a desorganização psíquica não estava relacionada estritamente à falta de sexo, mas ao acúmulo seminal, e não afetava a “mente”, mas os “feixes nervosos”. Este trabalho, apesar de pontuar as questões orgânicas, dedica-se, em grande parte, a ressaltar as especulações éticas sobre o sexo, com todas as conseqüências sociais e a uma “entrega” do desejo feminino, afirmação da subjetividade."

continua...

A-MAR


Lancei-me ao mar e perguntava incessantemente:

- Há mar?

Ele não me dizia nada, batia em mim cada vez mais forte, e eu falei:

- Aaaaah... mar!

Sair correndo e as ondas tentavam me agarrar pelos pés, ainda conseguir chutar duas entre espumas.

- hahahaha mar!

Ri muito, satisfeito de mim próprio. Eu fugi...mas quando olhei a minha volta estava em cima de uma pedra, arrodeado de mar. Bem que "mar" poderia ser uma palavra feminina, assim minha rima daria certinha.

- Lancei-me à mar.



Thursday, August 16, 2007

Humanizar os Pobres!?


Rabinow, Paul. Antropologia da Razão. Artificialidade e Iluminismo. Tradução e Organização João Guilherme Biehl.

Biopoder – “aquilo que faz com que a vida e seus mecanismos entrem no domínio dos cálculos explícitos e faz do poder-saber um agente de transformação da vida humana” (FOUCAULT1 apud RABINOW).
“Historicamente, as práticas e discursos do biopoder agruparam-se em dois pólos distintos: a ‘anátomopolítica do corpo humano’, âncora e alvo das tecnologias disciplinares, e um pólo regulador centrado na população com uma panóplia de estratégias concentradas no saber, no controle e no bem-estar2.
Rabinow pesquisa uma nova articulação dos discursos e práticas do biopoder – pelo Projeto Genoma [Human Genome Initiative]. Segundo, o autor, “corpo e população estão sendo rearticulado naquilo que se poderia chamar de uma racionalidade pós-disciplinar” (p.135)
Discute o posicionamento de Deleuze ao contra-argumentar Foucault, que atribuiu a linguagem da tríade antropológica – vida, trabalho, linguagem – uma importância na constituição de uma nova episteme. “O argumento de Deleuze não é o de que a linguagem é irrelevante, mas sim de que novas práticas que vão marcar época estão surgindo nos domínios do trabalho e da vida”. Contudo, ressalta Rabinow que é necessário considerar os termos heuristicamente, “considerando-os isoladamente e como uma série de pares de base unidos – trabalho e vida, vida e linguagem, linguagem e trabalho -, para verificar onde eles levam” (p.137).
A pesquisa de Rabinow investiga o Projeto Genoma que está imbricado com avanços tecnológicos no sentido mais literal (1). E o mais importante segundo o autor, que o objeto pesquisado, o genoma humano, possa ser conhecido de tal forma que possa ser transformado.
Eu realizo um paralelo quando a psicologia social, como forma de saber, se insere em comunidades de baixa renda, através de vínculos estatais ou não, com o pretenso discurso de Humanismo, com dois intuitos fundamentais: o primeiro, como ciência que tem como objeto o comportamento humano, avançar na compreensão humana e formas de convivência; e o segundo, que as comunidades que são implementadas projetos sociais possam ser conhecidas de tal forma que possam ser transformada. Como dirá Rabinow, “representação e intervenção, saber e poder, compreensão e reforma são construídos simultaneamente, a partir do início, como metas e meios” (p.137).
O que me leva a discussão do conceito de humanismo, não seria um artificio para o antigo ideal europeu de civilizar os selvagens. Então, surge uma preocupação com o conceito de Humanismo e às “instituições e práticas a eles associadas”, procurando descrever o que está acontecendo (p.137).
Por que se investe tanto dinheiro em projetos sócio-educativos cívicos, e oferecem tão pouco instrumento de reflexão crítica? O que me leva a pensar que querem humanizar, sem educar; e a educar, sem refletir. E quando falam em humanizar sempre se lembram dos pobres, que tal se surgissem organizações para humanizarem os ricos. Será inevitável não expor os tentáculos do Estado neste papel que limita e impõe as regras para os projetos sócio-educativos. Necessário rever historicamente os papéis das organizações que desenvolvem projetos sociais e sua atual ligação com o Estado. Analisar as imbricações políticas quando se propõe “Humanismo” aos pobres e as organizações bem intencionadas sustentam.
E o Estado teria que estar disposto de posiciona-se diante da ética da sociedade, e não procurar manter o controle na população que foi marginalizada.
1 História da Sexualidade 1. A vontade de saber.
2 Ibid. p.134.

A superior maestria do riso

Miró: La sonrisa de una lagrima

Um dia um amigo me falou que lembrava de mim pelo riso. Outros sabem que estou presente em espaços públicos quando ao longe ouvem meu rosnado riso, outros criticam, acham estranho...me deparo com este texto de um filósofo alemão que me identifico sobremaneira.



“Apesar daquele filósofo que, exatamente como um inglês autêntico, procurou desacreditar o riso para todas as cabeças pensantes - ´o riso é uma doença triste da natureza humana da qual todos os pensadores deveriam fazer um esforço para se libertar´ (Hobbes) – permito-me estabelecer uma hierarquia dos filósofos segundo a qualidade de seu riso, colocando no ápice os capazes de um riso dourado. Admitindo que os próprios deuses cultivem a filosofia, o que várias conclusões levam-me a crer, não duvido, também, que eles, filosofando, saibam rir de um modo novo e super-humano, às custas de todas as coisas sérias. Deuses são brincalhões: parece que, mesmo durante a celebração dos ritos sagrados, não podem segurar o riso”. Nietzsche.









Tuesday, August 14, 2007

Povo soberano, não confudir com povo sobreânus

Este texto escrevi em outubro de 2006...faça sua própria avaliação do Companheiro LULA, neste passar de ano. O que mudou? ACM morreu e a esquerda baiana vai ter que olhar para o próprio umbigo.

Lula começou seu mandato com a seguinte frase: “A eleição acabou. Não tem mais adversário. O adversário são as injustiças sociais”. Ora, mas por que o povo baiano precisa personalizar esta injustiça social em ACM?
Praça da Mariquita, 29 de outubro, segundo turno para a presidência, todos já sabiam que Lula ia ganhar, mas estavam todos reunidos vibrando a cada ponto ganho como se fosse novidade, ou como estivesse ganhando de virada no segundo tempo, aos 40 minutos. Para entender este fenômeno aqui na Bahia, precisamos lembrar dos anos de poder carlista, depois de tanto tempo a sensação era justamente essa: “ganhamos de virada”.
O povo ainda cantava a vitória de Jacques Vagner ou melhor a derrota de ACM: “eu, eu, eu ACM se...”. Estas três letras se tornaram tão importantes no imaginário baiano que mesmo perdendo ele ganhou. Ganha importância, ganha bordão, e continua o mesmo. O brilhantismo da vitória do PT está na "derrota de ACM", pelo menos aqui na Bahia.
O que aprendemos com a política brasileira? Aprendemos que a doutrina “Roubo, mas faço” de Adhemar de Barros, é exercida por todos e engolida por muitos. Todos que moram aqui na Bahia estes últimos 20 anos tem em ACM a figura do mal. Eu acho que os baianos dão importância demais a ACM, mas creio que é por falta de referência política. Sinto dizer, mas o mal não se encontra em ACM, muito menos o bem em Lula. O adversário agora não é ACM, é esta tal de Injustiça Social. Sabiamente Lula personificou a injustiça social. Mesmo que eu
não saiba muito bem o que é isso, ele vai lutar contra este monstro. Ele não, nós..."governo
participativo". Precisamos saber o que é injustiça social!
Só para lembrar...porque o Lula é muito esquecido, a primeira injustiça social que precisa combater esta debaixo da própria barba, no congresso, talvez a barba esteja grande demais, e ele não enxerga mais nada, a não ser ele próprio. Será que é combater ou deixar de práticar? A minha barba está de molho, companheiro Lula. Os holofotes agora estão em você. Esta é uma das questões, a injustiça social não é um adversário distante da gente, mas é para ser percebida em cada um de nós, em nossas pequenas ações. Esperamos que os próximos quatro anos muita coisa melhore.
Não quero conviver com o discurso petista que você foi incompetente para roubar, e termos que conviver com a “corrupção democrática”, novo conceito que surge no meio político.

observação: ACM não existe mais para ser o bode expiatório da esquerda baiana, talvez faça mais falta a esquerda às pessoas que um dia amaram ACM.

Victor Brandão
Povo soberano até ontem (29.10).

Lucubração


Escrevir este pequeno texto, após ler a imagem de Saramago sobre a transa divina-sexual de José e Maria no livro "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Mas pode ser uma bela maneira de acordar todas as manhãs.

Abrir a cortina num hábito matinal. O sol resplandeceu no rosto, levando ao arder da pele a agonia nos olhos. Deixei a janela em meia cortina, e o quarto foi invadido por canhões de sol que luzem na cocha da mulher ainda sonolenta. No momento esfria a alma ao observar os raios de sol quase que penetrando a pele da moça na cama, vou até ela.
Com o lençol sobre o ventre, nada percebe, até que eu chego e levanto o lençol delicadamente, num desleixo ou sabendo dos deveres de uma mulher casada, as suas pernas se abrem e perfuma o ambiente com o aroma de mulher. Eu a percebo com toda admiração e respeito. Envolta com uma calcinha de renda com os pêlos pubianos perfurando o tecido, ela deixa escapar um suspiro. Eu prendo a respiração, como se existisse alguém para acordar naquela fina camada de pêlos, e beijo num simples e demorado toque. Os seus olhos de espera entreaberto não compreendem o significado de tudo.
Puxo com dois dedos sua calcinha para o lado esquerdo, e depois, o sol não é o único a tentar perfurar a carne feminina presente na cama. Adentro sua pele, as pernam caem para o lado e vejo um leve morder de lábios. Os meus suspiros mais constantes e ritmados, e ela, agora, com um leve sorriso no rosto prende os gemidos ainda surdos. Gritamos e gememos como se todas as forças do mundo convergissem para a cama. Aquele sutis traços de anjo sonolento, tinham se transformado em uma feroz mulher que rasgava minha pele em unhas e mordia meu corpo como predador a devorar sua presa. Parecia que aquele momento não teria mais fim, ou que seria nossa última chance de sentir os prazeres da carne.
O seu corpo já todo melado de suor e prazer escorregava pela minha boca, os seus cabelos cobriam minha face...
Gostaria de descrever o fim, mas estava muito embriagado de prazer para poder me lembrar alguma coisa. Aquele momento nunca mais vai se repetir em nossas vidas.

Última gota do desejo

Fonte: http://www.mcescher.com/

Qual a proveninência de tanto desejo?
Um gole de cerveja
Um banho de mar
Os corpos que se sorvem
A necessidade intransigente de ser livre
A transcedência da alma

Os seios hirtos, a espera de um afago
abrigam todas as emoções
A boca - o mais perfeito desenho -
melada de sal na busca do gozo
na luz da manhã não se farta com o último toque

Os suspiros sôfregos, melodias no ar
Os olhos cortinam o mundo
e revelam a alma, os corpos

Os corpos se tocam
E se tocam...
Não sabem a hora do fim

As carícias de nossas línguas
Excitam a cobiça alheia
E o universo passa a ser você
Num átimo que perfaz a eternidade
Quando num súbito

Num súbito e indispensável momento de lucidez
A última gota de fantasia se escapa
Sublimando a insaciável vontade de amar
O sabor do seu corpo adormece
nos meus lábios






Victor

A trajetória do Amor - Parte 1

Seria fácil se fosse em linha reta, mas anda em labirintos circulares na busca do centro acolhedor e estável. Na trajetória do amor a tentativa não é sair do labirinto, mas aprofundá-lo, permanecer perdido. E assim estou.

À primeira vista: cabelos pretos ao ombro, calmamente sentada, um belo decote. Poderia me apaixonar naquele momento, mas não tinha tempo, sair, e ela não passava de uma boa lembrança.

Sunday, August 12, 2007

Vagas lembranças, Muitas Histórias


fonte: http://www.mcescher.com/


VAGAS LEMBRANÇAS
Naquele momento de tristeza
Não me lembro das lágrimas
Só de um rosto pálido...triste!
Sem querer partir
Me lembro de um barco cheio de flores
De um barco sem mar
De um barco sem vida
As flores... eram tão belas tentando encorajar a sua partida
Agora, eu sei para que existem as flores
Vagas Lembranças
Veja um menino sentado, sozinho
Triste...??? Não me lembro
Talvez estivesse esperando uma resposta
Que demora de chegar
Quantas vezes mais este menino
Terá que embarcar a dor
Terá que embarcar a flor.
Técnica de Autobiografia
Fase 1
Às vezes eu tento lembrar de fatos anteriores aos 5 anos de idade e não consigo, parece que minha infância, minha memória e minha vida nasceram num mesmo dia, 1º de outubro de 1982, talvez a data não seja esta, mais isto não tem a menor importância, o que é relevante nesta data, é que foi o dia que meu pai morreu. Foi um dia de agitação lá em casa, não sei se as minhas lembranças surgem a partir das vivências dos acontecimentos, ou foi pelo fato de ter escutado esta história da minha mãe. O fato é que na noite anterior, ouço muitos choros e não sei o porquê, o quarto que eu dormia tornou-se numa cela da qual eu não podia sair, ele se tornou mais escuro e me parece que minha irmã ficou comigo, sete anos mais velha. No dia do enterro as coisas me pareciam mais claras, também era dia! Como eu estava dizendo foi um dia de agitação, a casa não parava de chegar parentes, e algumas pessoas apareciam com aquelas conversas idiotas que papai foi para o céu. Eu chorei muito para ir por enterro, não que eu quisesse ver o corpo, mas me pareceu que lá que era festa, houve uma certa resistência por parte de todos, mas diante de um escandaloso choro, meu tio psiquiatra achou por bem me levar. Eu já escrevi uma poesia sobre o momento no cemitério, não me lembrava da parte externa ou interna do cemitério, me lembro que algum tio me pegou pelo colo, e me levantou diante do caixão, na poesia eu chamo barco de flores, pois ficou registrado uma imagem de um homem negro, coberto por flores coloridas, protegida por uma fina camada de véu branco, do qual destacava seu rosto. Na seqüência de imagens, o garoto se recolhe num canto, senta num batente e brinca com as pedras. Na poesia eu me pergunto quantos barcos mais eu vou ver partir.
Ainda nesta idade ou um pouco depois, me lembro que brincava de aventureiro pelos becos do condomínio, que era formado por muitos prédios e muros, sempre acompanhando os colegas nas escaladas e passagens secretas. Eu tinha um amigo, que dormia com mais dois irmãos homens no quarto, e a menina dormia no quarto separado, no quarto do fundo, pois o apartamento só tinha dois quartos centrais, ainda tinha o pai e a mãe. Não sei por que mais eu achava a casa deles tão cheia, mas a diferença para minha família só era de um membro, talvez pelo fato da minha memória só iniciar com a morte do meu pai, ai a diferença aumenta para dois, é um valor significativo para uma família. Tinha um tio no antigo bairro, meu tio Eduardo, que já morava conosco, só que eu não me lembro da sua presença na casa. Eu só me lembro da presença dele no bairro que eu moro hoje há 25 anos, justamente a data de morte do meu pai. A palavra pai é quase sempre oca para mim, não consigo atribuir nenhum significado a não ser o trivial, o que casa com a mãe e tem um filho. Tem certas imagens que eu não sei se foram alimentadas pela insistência de fotos e histórias de minha mãe ou se são minhas enquanto experiências, mas me lembro de um velotrol vermelho que eu descia uma imensa escadaria de cimento, e no qual meu irmão pegava carona ficando em pé num apoio que tinha no fundo, um dia ele saiu de vez e eu bati a cabeça no chão, eu acho que foi a partir daí que a nossa relação sempre foi estranha, um pouco de exagero, não é?
Também, tem uma outra imagem, com a mesma ressalva anterior, que era eu tomando banho, me deu vontade de escrever “com o velho” (meu pai de forma carinhosa), e ele estava me ensinando como passar sabão num rosto, era uma coisa grandiosa para uma criança, aquele rosto negro todo cheio de sabão branco, eu queira fazer igual, na minha primeira tentativa conseguir dois olhos irritados pelo sabão e muito choro, ele me consolou e rapidamente lançou o jato de chuveirinho sobre os meus olhos, esta imagem do herói atravessa a humanidade, mas são coisas simples que enchem de alegria e dão cor a vida.
Ocorreu uma outra lembrança, após a morte do meu pai, estava pronto para ser uma criança insegura, todos os primeiros dias de aula eu chorava como criança (há, há, há! eu era uma criança) e queria voltar no rabo de saia da minha mãe (desde pequeno que eu gostava de um rabo de saia), como foi logo após o ocorrido (a ausência eterna do meu pai), ela até que se tornou condescendente, mas depois, eu me lembro que eu ficava horas chorando, até que me integrava no grupo, ela me disse a pouco tempo que aquilo deixava ela de coração partido, mas era preciso. E ela aprendeu esta idéia de parcial independência com o falecimento do marido. Parcial, pois surgiu uma outra lição na nossa família, que nunca estamos só, nunca poderemos viver neste mundo de relações, sem um apoio afetivo e efetivo.
Uma outra imagem freqüente era eu procurando um local na casa para amarrar uma corda e descer com o amigo pela janela, morávamos no primeiro andar, era fácil, eu acho. Eu não tinha mais herói, eu era agora o herói. O restante das imagens do antigo bairro é de brincadeiras, uma delas que permanece é de minha irmã brincando com um jogo de 5 ou 6 pedras, iniciava com uma na mão e ela tinha que jogar as outras entre a mão esquerda em forma de gol no chão, enquanto jogava a pedra da mão para o ar e empurrava rapidamente uma de cada vez, as que permaneciam no chão. E por aí vai as brincadeiras...
Depois que eu me mudei de Brotas, eu tenho a memória espalhada por muitos locais até os 12 anos, e este período foi um período de imensos acontecimentos para uma criança.
Fui para um outro condomínio, mais amplo e espaçoso, foi lá que aprendi a me defender das brincadeiras perversas dos coleguinhas, de apelido, zombaria, roubo de gudes, figurinhas, brigava com os meninos maiores, tornei-me reativo e talvez um pouco agressivo, de um certa forma era sempre estimulado pelos machos de plantão da casa, a retornar qualquer insatisfação em dobro, que contradizia com o ensinamento pacífico de minha mãe. Mas uma coisa é certa, tanto eles quanto minha mãe se preocupavam com os meus estudos, nunca minha mãe teve tantas dificuldades financeiras para cuidar de três filhos, mas conseguiu educar bem todos em bons colégios, mesmo com a mudança para um bairro distante, continuamos todos na mesma escola do antigo bairro.
Uma escola com um rigor monástico, era uma escola da igreja católica, uma parte era escola a outra era um convento. Era neste local que estão as outras lembranças. Fazendo um paralelo entre meu bairro e a escola, percebo que meu comportamento reativo foi progressivo a minha convivência com os meus amigos do bairro. Na escola era o oposto, tudo muito silencioso, cheia de rigores e formalidades. Toda segunda-feira pela manhã às 6:30 cantava o hino nacional e orava “o pai nosso” coletivamente. Eu era uma outra pessoa na escola, os professores nesta fase me faziam medo, um dia estava com tanta vontade de ir ao banheiro, mas não fui e fiz coco nas calças só porque a professora estava chateada e falou que ninguém ia sair.Só que nestas condições obviamente podia sair, até porque quando eu fui até ela eu já tinha feito o serviço e eu cheguei perto dela e pedi, ela sentiu o cheiro, olhou para mim com aquela cara, pensou “algo esta cheirando mal” e deixou eu ir. Depois foi um constrangimento, no intervalo, minhas calças sujas estavam com um cheiro desagradável, e eu tive que evitar a presença dos colegas, todos que chegavam até mim assoava o nariz. Quando eu contei este caso na família, o velho e esquecido tio falou que deveria ser também reativo na escola, que eu tinha direitos, e eu que pensava que era apenas com os meus colegas do bairro... esta vida de criança às vezes é uma merda.


Na escola sempre foi muito estimulado a boa convivência, coletividade, sempre tinha festas grandiosas de comemoração de alguma data. A imagem mais marcante da escola, foi a igreja, íamos rezar, já não bastava segunda-feira no pátio, todas as sextas na igreja subíamos uma imensa escadaria em forma de caracol, escura e estreita (Freud ia adorar esta descrição) em fila sem correr, no início da escadaria sentíamos um cheiro de massa de pão, o convento fazia pão para consumo interno e eu acho que as noviças desciam as escadas com as mãos sujas de massa e pegavam pelo corrimão. No meio da escada, em um determinado andar, surgia uma sala com cores lindas em tom vermelho, era a sala de vinho e licores, até hoje são os melhores da cidade, e os nossos pulmões e narinas eram presenteados com aquele cheiro de suco de uva em fermentação. A entrada pela igreja era internamente pelos fundos, antes de chegar, passávamos por um imenso jardim, era própria reprodução do Éden, só faltava os pecadores. Ao chegar na igreja passávamos pelo altar e éramos guiado pelas laterais das paredes para sentarmos nas cadeiras, antes toda a fila de criança percorria as laterais da igreja olhando os quadros do calvário, uns quadros tristes, com cores densas e escuras, vermelho sujo e muito preto e marron, éramos obrigado a passar olhando pelos quadros, o padre falava alguma coisa que eu não entendia, mas sempre achava bonito e os garotos sentavam juntos e ficavam se comunicando através de sinais, enquanto a diretora (uma rígida freira) e a professora tentavam nos vigiar.
Por essa mesma escada, chegava no auditório da escola, lá que eu acho que surgiu minha vocação para o teatro, as peças eram os momentos mais felizes e importantes daquele, deste e o de sempre modelo de educação. A relação de construir algo juntos, dividir nossos segredos de grupo no camarim, todos curiosos pelo o que ocorria lá e no ensaio, o momento de exaltação e criação.
Na Quinta série exatamente aos 12 anos, dificuldades financeiras, tive que ir para o interior estudar num colégio público, já que minha família julgava de melhor qualidade que os de Salvador. Morei um ano com minha vó e minha tia, justamente este é o marco da outra fase. Morar longe da minha mãe foi muito importante, apesar do ambiente ser familiar e eu adorar ficar no interior brincando, vivendo. Entre as crianças, os tipos de brincadeiras não eram de defesa e proteção, eram brincadeiras de convivência e amizade, era bonito. Nem sempre, por ser de outra cidade, precisei encarar algumas brigas no início. Para fechar o momento anterior eu falava para minha mãe que eu nunca queria crescer.




Só para não dizer o que é amar


Quando invade a sala
Finjo que não te vejo
Para não dizer o que é amar

Respiro o teu perfume
Sorrio com o teu sorriso
E disfarço do teu olhar

Quando andas
Decoro os teus passos
Fingindo não gostar

Quando não olhas
Repito os teus gestos
Tentando te lembrar

Se não escutas
Falo a tua língua
Pensando em roçar

Escrevo poesias
Invento fantasias
Querendo te amar

E se tu não passas
Espero o fim do dia
E vejo o sol declinar

Renasce a esperança
E durmo
Pensando em acordar

Às 7:00 da manhã
Subo a ladeira
Sento e espero você chegar

Você invade a sala
Finjo que não te vejo...

Esperança de um cego


O seu amor é algo tão delicado.
Creio ser cristais que repousam
na superfície do mar.
Podem sempre ser vistos,
mas jamais tocados.
Com o sopro do vento sentem frio.
Com o arder do sol se derretem.
Com o tremer do mundo se desmancham.
Todos que chegaram perto
tiveram que voltar.
Ofuscado belo brilho
Eu fiquei cego.
E a vida perdeu as cores.
Os movimentos rápidos e festeiros
tornaram-se lentos e melancólicos.
Quem nada sofreu por você
é porque nunca soube te enxegar.
Caminharei só na escuridão,
com a bengala em punho,
no triste caminho trôpego de um cego.
Cultivarei a esperança de reacender a luz
dos meus olhos e apagar a chama da solidão.
Do triste fim da perda dos olhos,
Ganharei a paciência de caminhar.
“A poesia é única prova que ainda somos capazes de enxergar com o coração”.

Augusto Boal é um homem fabuloso.




Augusto Boal é um homem fabuloso. Ele disse justamente aquilo que por muito tempo eu queria dizer e fazer, mas não sabia o que era, Por quê? Porque no teatro, assim como em todos os setores de comunicação, vivemos idéias alienantes, estamos realizando determinado trabalho e não sabemos nem mesmo porque; não questionamos se é aquilo que desejamos e pudemos questionar?. Aí aparece um carinha para ajudar interpretar determinado texto, todos fingem que entendem, aquela interpretação tosca, superficial e vazia. “Mas não ?...” dizem eles, “...estamos falando de algo sério, nosso teatro é crítico.” Ninguém, contudo, pará para perguntar: para quem é este teatro ? para que serve ? que público vai atingir ? vai ter repercussão? Pouca importa. Eles foram pagos por esse hipócrita sistema político-capitalista, que apenas desejam uma peça que projete o nome de sua empresa; nada que ofenda, nada que faça pensar, nada de grandes emulações sociais, e o pior nada de grande mudanças pessoais, nem para o espectador, muito menos para o ator. É o teatro de fantoche com carne e osso. E quem é o operador dessses bonecos, certamente que é a “mão-invisível”, tinha que ser invisível, assim não podemos cortá-la.
Então, eu nos meus afazeres cotidianos, deparo-me com “Auguto Boal exilado”. Quem é Augusto Boal ?Mas por que exilado ? Depois eu digo, o interessante é a sua vida, a sua obra, o seu projeto, ou melhor, o projeto dos outros, daquele que não tem voz, sem canais para se expressar como ser humano. A “mão-invisível” não é dele, sendo ele próprio invisível como ser humano. O que esse homem faz é o Teatro do Oprimido, “método conscientizador adotado já em setenta países mas ignorado neste Brasil”, detetor de uma línguagem, sem ideologias ou grandes mensagens milagrosas, não procuram interpretar a realidade, mas procura mostrá-la. Não teria como melhor exemplificar, descrevendo um trecho da entrevista dada a revista Caros Amigos, que me sensibilizou para um história tão simples sem perder a sinceridade e profundidade, vamos a ela: Oprimido é que em toda relação devia ter diálogo.(...)Mas todo diálogo se converte em monólogo(...). Então, quando você é despossuído do direito de falar, do direito de ter sua personalidade, do direito de ser, isso é oprimido. Ano passado, a gente tinha vários grupos, e eu vivo dizendo que eles são teatro mesmo que não façam teatro, porque ser teatro é trazer em você o ator. Porque você age, então você é um ator.(...) Aí, um dia, eles chegaram para mim e disseram: “Escuta, você vive falando pra gente que a gente faz teatro, que a gente é teatro, mas a gente só representa na rua, no Aterro do Flamengo, e nunca dentro de um teatro. Então vamos fazer dentro de um teatro.” Eles insistiram tanto, então vamos fazer. O pessoal de favela, empregadas domésticas, grupos em geral, Temáticos ou de comunidade. Eles queriam que a pessoa, mesmo que não tivesse dinheiro, fosse na bilheteria pegar o ingresso. Cumprir o ritual. (...). No domingo, último dia, as empregadas domésticas se apresentaram. Um sucesso, todo mundo gostou e tal, vieram me dizer que uma delas estava chorando.(...) Então ela me contou uma coisa maravilhosa. Falou que era empregada doméstica. E, como empregada doméstica, era ensinada a ser invísivel.(...) A comida é feita na cozinha, a comida vem pra mesa, os pratos vão embora, são lavados, quem é que fez? A empregada invisível, quer dizer, ela não existe. E ela tem que ser muda e surda porque, se num jantar tem pessoas conversando, ela não pode dizer: “Não, não concordo com você. Eu acho que...”. Então ela disse: ...fiquei muito emocionada, porque na platéia estava a família, para quem eu trabalho, no escuro. Me vendo e me ouvindo... foi a primeira vez que eles viram meu corpo, ouviram a minha voz e entederam o que eu penso...” (...) “...quando voltei pro camarim olhei para o espelho e vi pela primeira vez uma mulher...antes eu olhava e via uma empregada doméstica”.
Comovente. Boal conclui da seguinte forma: “ ‘Mas Boal, ele transforma o mundo?’ Não; mas o fato de permitir que uma pessoa se olhe no espelho e veja uma mulher, um homem, cada um veja a si mesmo, isso já é um avanço extraordinário”. Augusto Boal, um filho de padeiro, que se formou em química, e escolheu o teatro como filosofia de vida, profissão, meio de sobrevivência físico-emocional. Que não quer falar, fazer nenhuma interpretação tosca, mas quer deixar que os outros falem. É isso que eu quero, estou feliz, esse é o caminho. Ah ! Por que é exilado? José Arbex Jr. Pergunta: “Você menciona o fato de que o teatro é conhecido em setenta países, lota os teatros estrangeiros, o centro de cultura francesa, etc., e no Brasil encontra essa coisa refratária ao teu método. Você se sente exilado dentro do Brasil ?”. Ele responde singelamente: “Ë isso mesmo”.

Entrevista com Freud








Construímos abaixo (eu e Sumaia) uma suposta “entrevista” com Freud no primeiro ano de graduação. Buscando nos seus textos, sobretudo Totem e Tabu, as possíveis respostas ipsis litteris. Queremos, ou melhor, já que estamos falando de Freud, desejamos elucidar os temas que consideramos mais importantes e esclarecer algumas idéias básicas.

Sigmund Freud, o senhor como pai da psicanálise, popularizou-se pelas suas idéias revolucionárias sobre o mecanismo psíquico, dividindo e ao mesmo tempo relacionando em dois processos: consciente e inconsciente. Sendo este último um dos motivos da polêmica da sua teori. Sem querer adentrar nas questões que movimenta esse mecanismo que seria a libido. Mas quero particularmente pergunta sobre a consciência. A consciência do tabu é a forma mais remota em que o fenômeno da consciência é encontrado?
– “Sim, porque o que é consciência? Segundo as provas da linguagem, ela está relacionada com aquilo de que se está ‘consciente com mais certeza’. Na verdade, em algumas línguas, as palavras para designar ‘consciência’ (no sentido moral, conscience, N. do Trad.) e ‘consciência’ (no sentido de percepção do que se passa em nós ou ao redor de nós, consciousness, N.do Trad.) mal podem ser distinguidas. A consciência (conscience, N. do Trad.) é a percepção interna da rejeição de um determinado desejo a influir dentro de nós. A ênfase, contudo, é dada ao fato de esta rejeição não precisar apelar para nada mais em busca de apoio, de achar-se inteiramente ‘certa de si própria’. Isto é ainda mais claro no caso da consciência de culpa – a percepção da condenação interna de um ato pelo qual realizamos um determinado desejo. Apresentar qualquer razão para isto pareceria supérfluo: quem quer que tenha uma consciência deve sentir dentro de si a justificação pela condenação, sentir a autocensura pelo ato que foi realizado. Essa mesma característica pode ser observada na atitude do selvagem para com o tabu. Trata-se de uma ordem emitida pela consciência ; qualquer violação dela produz um temível senso de culpa que vem como coisa natural e do qual a origem é desconhecida.”
Então cada um, pelo que eu entendo, tem sua prórpia lógica interna para admitir a culpa. Mas a consciência de culpa tem uma justificativa ?
– “Tem uma justificativa se levarmos em consideração os pensamentos inconscientes e não os atos intencionais.”
Trazendo essas idéias para contemporaneidade, como a consciência de culpa se manisfesta nos pacientes neuróticos ?
– “Vê-se que a onipotência de pensamento, a supervalorização dos processos mentais em comparação com a realidade, desempenha um papel irrestrito na vida emocional dos pacientes neuróticos e em tudo que dela se deriva. Se um deles submeter-se ao tratamento psicanalítico, que torna consciente o que nele era inconsciente, será incapaz de acreditar que os pensamentos são livres e constantemente terá medo de expressar desejos malignos, como se sua expressão conduzisse inevitavelmente à sua realização.”
Então poderíamos dizer que o desejo se manisfesta na construção do aparelho psíquico?
– “Todo e qualquer ato psíquico é a expressão final da realização do desejo.“
A ambivalência parece ser um ato recorrente nos impulsos psíquicos, segundo a leitura que nós fazemos do seu material, o Senhor, até mesmo considerou que “os impulsos dos povos primitivos fossem caracterizados por uma quantidade maior de ambivalência que a que se pode encontrar no homem moderno”. A pergunta se dirige na relação entre ambivalência e consciência de culpa, tanto no tabu como na neurose obsessiva ?
“Dessa maneira parece provável que também a consciência tenha surgido, numa base de ambivalência emocional, de relações humanas bastante especifícas, às quais essa ambivalência estava ligada e que surgiu sob as condições que demonstramos se aplicarem ao caso do tabu e da neurose obsessiva, a saber: que um dos sentimentos opostos envolvidos seja inconsciente e mantido sob pressão pela dominação compulsiva do outro. Esta conclusão é apoiada por várias coisas que aprendemos da análise das neuroses.”
O Senhor disse a pouco instante que o desejo é representado por qualquer ato psíquico, nesse caso, o sonho é comparado ao pensamento no sentido de que ambos constituem representações?
“Fecham-se os olhos e se alucina, abrem-se e se pensa em palavras.” (risos)
Os primitivos desenvolveram um sistema, o qual no seu próprio texto denomina de animista, cujo seres espirituais são atribuidos a todos os seres animados e inanimados, e como técnica de controle utilizaram a magia e a feitiçaria. Qual a relação que podemos fazer com o desejo, já que todo ato psíquico é a expressão final da realização de um desejo? Comente também da possível relação com o comportamnto infantil.
“Não é de se supor que os homens foram inspirados a criar seu primeiro sistema do universo por pura curiosidade especulativa. A necessidade prática de controlar o mundo que os rodeava deve ter desempenhado seu papel. Assim, não ficamos suspresos em descobrir que, de mãos dadas com o sistema animista, existia um conjunto de instruções a respeito de como obter domínio sobre os homens, os animais e as coisas – ou melhor, sobre os seus espíritos. É fácil perceber os motivos que conduziram os homens a praticar a magia: são os desejos humanos. Tudo o que precisamos admitir é que o homem primitivo tinha uma crença imensa no poder de seus desejos. A razão básica por que o que ele começa a fazer por meios mágicos vem acontecer é, em última análise, simplesmente que o deseja. De início portanto, a ênfase é colocada apenas no seu desejo.
As crianças se encontram numa situação psíquica análoga, embora sua eficiência motora não esteja ainda desenvolvida. Já expus em outra oportunidade a hipótese de que, primeiramente, elas satisfazem seu desejo de maneira alucinatória, isto é, criam uma situação satisfatória por meio de excitações centrífugas dos órgãos sensoriais. Um homem adulto primitivo tem à sua disposição um método alternativo. Seus desejos são acompanhados de um impulso motor, a vontade, que está destinado, mais tarde, a alterar toda a face da terra para satisfazer seus desejos.”
Menenes, no livro Fábrica de Deuses, realiza uma leitura do seu texto Totem e Tabu e constata, na palavra do autor, o seguinte: “...o totem não possibilita um registro relevante, a nível psíquico, das experiências nas quais a sua presença se verifica. É como se Freud estivesse dizendo que sem o totem, o mesmo conjunto de representações estaria registrado. Em outros termos: ele seria prescindível nas vivências humanas”. Continua a ele a se questionar: “ Em que sentido o tabu teria primazia em relação ao totem, se é que tem? Estaria Freud sendo arbitrário no tratamento dos dois fenômenos culturais?”. Como o senhor aborda essas questões no seu livro para provocar tantos questionamentos?
“Ver-se-á que os dois principais temas dos quais o título deste livro se origina – os totens e os tabus – não receberam o mesmo tratamento. A análise dos tabus é apresentado como um esforço seguro e exaustivo para a solução do problema. A investigação sobre o totemismo não faz mais que declarar que ‘isso é o que a pscinálise pode, no momento, oferecer para a elucidação do problema totem’. A diferença está ligada ao fato de que os tabus ainda existem entre nós. Embora expressos sob uma forma negativa e dirigidos a um outro objeto, não diferem, em sua natureza psicológica, do ‘imprativo categórico’ de Kant, que opera de uma maneira compulsiva e rejeita quaisquer motivos conscientes. O totemismo, pelo contrário, é algo estranho aos nossos sentimentos contemporâneos -–uma instrução social-religiosa que foi há muito tempo relegada como realidade e substituída por formas mais novas. Deixou atrás de si apenas levíssimos vestígios nas religiões, maneiras e costumes dos povos civilizados da atualidade. Os progressos sociais e técnicos da história humana afetaram os tabus muito menos que os totens.”
Menezes, o autor citado do Fábrica de Deuses, lançou a seguinte pergunta para um grupo de estudantes: O que o desjo individual possue de tão forte para receber um proibição tão severa? Repasso essa pergunta para o Senhor.
“Os dois tabus do totemismo com que a moralidade humana teve o seu começo não estão psicologicamente no memso nível. O primeiro deles, a lei que protege o animal totêmico, fundamenta-se inteiramente em motivos emocionais: o pai fora realmente eliminado e, em nenhum sentido real, o ato podia ser desfeito. Mas a Segunda norma, a proibição do incesto, tem também uma poderosa base prática. Os desejos sexuais (individuais, sobretudo) não unem os homens, mas os dividem. Embora os irmãos se tivessem reunindo em grupo para derrotar o pai, todos eram rivais uns dos outros em realação às mulheres. Cada um quereria, como o pai, ter todas as mulheres para si. A nova organização terminaria numa luta de todos contra todos, pois nenhum deles tinha força tão predominante a ponto de ser capaz de assumir o lugar do pai com êxito. Assim, os irmãos não tiveram outra alternativa, se queriam viver juntos – talvez somente depois de terem passado por muitas crises perigosas - , do que instituir lei contra o incesto, pelo qual todos, de igual modo, renunciavam as mulheres que desejavam e que tinham sido o motivo principal para se livrarem do pai. Dessa maneira, salvaram a organização que os tornara fortes – e que pode ter-se baseado em sentimentos e atos homossexuais, originados durante o período da expulsão da horda.” (grifo nosso)
Agradeço sua paciência para conosco. Sei que muitas perguntas ainda faltam para ser respondidas e perguntadas. Solicitamos aos leitores desta entrevista que recorram ao livro do estimado entrevistado para possíveis e recorrentes dúvidas.

Noção de Corpo e Alma em Diderot

TEMA: A NOÇÃO DE CORPO E ALMA EM DENIS DIDEROT.
APRESENTAÇÃO DO TEMA
O presente trabalho se propõe a realizar uma investigação do pensamento de Denis Diderot, particularmente da relação existente entre o corpo e alma. A pretensão é analisar os liames que norteiam esses conceitos, abordando a complexa proposta diderotiana de conhecimento, política, ética, estética, sob cujos eixos o autor debate a relação. Questões importantes foram colocadas por Diderot no campo do conhecimento e do humanismo ligadas à filosofia materialista. Como aproximar a filosofia, com todos os seus rigores, a uma “massa” não preparada para determinado assunto? Como transformar a filosofia de um instrumento para o povo, para um instrumento do povo?
Diderot realiza uma reflexão considerando a totalidade do corpo, propondo o novo olhar sobre a matéria, experiência e o conhecimento. O corpo, em toda sua complexidade, é o fundamento do materialismo diderotiano; é nele que se realiza seu ideal, também, político: da educação para as massas.
O corpo passa a ser a medida do homem. As idéias mais puramente intelectuais, diz Diderot, assim como a metafísica e moral, dependem muito de perto da conformação do corpo (DIDEROT, 2000a:p.103). Ora, Diderot realiza uma inversão que vem acrescentar aos debates, sem cometer reducionismo teórico. Uma teoria fundada no corpo, mas sem antes a devida complexidade e crítica cética.
Os limites impostos ao corpo, seja pela condição física ou moral, irão estabelecer o olhar deste sobre o mundo ou o seu próprio silêncio. O limite do corpo é o silêncio da alma. Estamos numa época que os corpos funcionam como máquina de destruição, instrumento de fútil prazer, beleza anorexica ou metrificada, desta forma retomar o pensamento de Diderot nos ajuda a questionarmos sob um sentido revigorante e saudável desta relação corpo/alma.
As psicologias se debatem sobre este tema, ou recorrem às explicações estritamente ambientais e fisiológicas, colocando o corpo como uma massa amorfa receptiva a toda e qualquer reforçamento; ou entendendo as pessoas conforme teorias estritamente mentalistas. Os tecnoburocratas da psicologia pouco permitem a generosa postura de olhar para os sujeitos e não para as suas teorias. Diderot contribuiria no sentido de colocá-los na condição de vulnerabilidade do saber, permitindo que as pessoas percebam o corpo em movimento, assim como as idéias, pois aí está a alma.
3. JUSTIFICATIVA
Pode-se dizer que Diderot foi um homem do seu tempo com idéias inovadoras para os novos tempos; como bem o afirma Guinsburg: o “Espírito das Luzes”. Sua influência remete a filosofia materialista de fundamentos fisiológicos. Vale salientar que dentro deste postulado, a proposta de uma filosofia universal se estabelece aquilatando uma crítica social. Observa-se, por exemplo, que o conceito de gênero – considerado importante para as ciências humanas e sociais da atualidade – foi profundamente abordado por Diderot como uma crítica à sociedade francesa. Se num momento propõe uma discussão do corpo físico masculino e feminino, no outro torna irrelevante esta diferença. A discussão dar-se-á na importância do corpo feminino para o mundo social, político, cognitivo e a construção da subjetividade da mulher.
Diderot anunciava os discursos da fenomenologia, vejamos um fragmento de Merleau-Ponty: “...Um corpo percipiente que vejo é também uma certa ausência, escavada e preparada atrás dele por seu comportamento. E, no entanto, a própria ausência está enraizada na presença; aos meus olhos, a alma do outro é alma graças ao seu corpo...” (MERLEAU-PONTY1 apud NOVAES, 1988:p.14). Novaes defende que Merleau-Ponty faz lembrar Epicuro, mas é no Iluminismo que tecem os pontos entre os Antigos, a Renascença e os Modernos; Diderot foi uma excelência neste sentido.
Filósofo de pensamento complexo, confunde os seus críticos, o considerando materialista ateu, ou deísta (ROMANO, 1996:p.50). Era um filósofo da incerteza, e nisso estão suas próprias palavras, “não há nenhum cético, dado que, à exceção das questões matemática, que não comportam a menor incerteza, há pró e contra em todas as outras” (DIDEROT, 2000b:p.162).
A educação coercitiva e autoritária direcionavam as crianças para o “aprendizado da civilidade”, o “disciplinar as almas por meio da coerção exercida sobre o corpo e impor à coletividade das crianças uma mesma norma de comportamento sociável” (REVEL, 1991:p.176)2. Sobre essas imposições de autovigília se vivia na França do século XVIII, já tinha passado pela turbulência do Renascentismo do século XVII, e dele tirou-se lições e guardou as influências. A mobilidade das classes sociais, o surto demográfico, a acumulação de capital, a revolução bancária e tecnológica, o desenvolvimento industrial foram fatores que favoreceram a Revolução Intelectual do século XVII e XVIII (GUINSBURG, 2000:pp.62-63). O racionalismo em chamas aquecia as fogueiras intelectuais, o mecanicismo e o método indutivo imperavam nas mentes dos grandes gênios da época. Com Newton – afirmando que as leis físicas são invariáveis a todo o universo – e John Locke – rejeitando a doutrina cartesiana das idéias inatas e afirmando que todo conhecimento humano deriva da percepção sensorial, ou seja, da experiência – é que se funda o Iluminismo, apesar de sua inspiração filosófica ser atribuída aos racionalistas: Descartes, Espinosa e Hobbes.
Este é o berço de Diderot, filósofo que não flutuava no mundo da metafísica, ou flutuava em todos os mundos, absorvia-os para exercer a crítica filosófica. Preocupado e atento à utilidade do conhecimento realizou reflexões morais, sociais, políticas, estéticas, com uma linguagem extremamente cativante, comovente e alegre; justifica-se inúmeras vezes que a “linguagem poética”, assim considerada pelo próprio filósofo, é pela insatisfação da comum sisudez dos filósofos e adequação aos menos letrados. O seu desejo era uma filosofia para a “massa”.
Diderot tinha como guia orientador filosófico a questão da utilidade. A pergunta que os menos letrados normalmente fazem diante de um saber – para que serve? – já deveria ser colocada no problema filosófico. Era indispensável associar o entendimento à experiência e esta ao instrumento, mostrando sua relevância útil para as pessoas comuns. Para o homem comum, a experiência física - logo o contato entre instrumento e corpo – se mostra indispensável como estratégia de popularização da filosofia (DIDEROT, 1989:p.40).
Na obra Da interpretação da natureza, o iluminista expõe de forma muita clara que alguns têm muitos “instrumentos e poucas idéias; os outros, muitas idéias e nenhum instrumento” (DIDEROT, 1989:p.30). A procura é pelo equilíbrio entre a idéia e a prática, para isso institui três meios como método de pesquisa: observação da natureza, a reflexão e a experiência. Tais caminhos permitiriam tornar o conhecimento útil e acessível. O caráter racional crítico de sua epistemologia estabeleceria um modo de pensar a ciência. Não há uma completa rejeição da metafísica, mas intenta relacionar a metafísica à experiência humana, um precursor a tratar da objetividade para o conhecimento humano. Diderot corporifica a idéia.
Muito mais que uma vulgarização da filosofia, desenvolve um sistema de pensamento. Recolhe os fatos (observação), os combina (reflexão), e verifica o resultado (experiência), com esta tornaria possível ao povo “respeitar a filosofia” (DIDEROT, 1989:p.40). A experiência é a prova das conseqüências e dos efeitos enquanto utilidade, mais que uma busca causal. O que se pretendia é entender a utilidade da filosofia e aplicá-la.
Para Diderot o sábio não deveria se entregar a certas reflexões demasiadas abstratas, o sábio é aquele que se dedica “às pesquisas relativas ao seu bem-estar” (DIDEROT, 1989:p.84). E bem-estar é o alvo do corpo e da alma, levados pela flecha do útil e do agradável. Contudo o prazer (o agradável) não se restringirá ao corpo, mas também a alma. Aqui se estabelece um paradoxo ou uma resolução do dilema dualista, pois a alma indissociada do corpo, só pode sentir os prazeres enquanto corpo: pelos sentidos que conserva uma momentânea sensação ou pela memória que ressoa a sensação a ponto de entregá-la ao entendimento. A memória, em Diderot, é o atributo da existência e da consciência de si, com suas características fisiológicas.
Vejamos como, no Diálogo entre D´Alembert e Diderot (2000), está relação indistinta - corpo/alma - é explicada. Inicialmente se estabelece um marco e uma crítica ao pensamento cartesiano, no que se refere à distinção entre o corpo e a alma. O corpo para Diderot definitivamente não é máquina desprovida de alma, mas não cabe questionar as qualidades desta, pois é um elemento imperceptível, “precipitais em um abismo de mistérios, contradições e absurdos” (DIDEROT, 2000b:p.159). O que garante a presença da alma é a observação e comparação das matérias, algumas contêm a sensibilidade inerte, e outras a sensibilidade ativa. A primeira uma força morta, mas com energia potencial; a outra uma força ativa que garante movimento e calor a matéria. A matéria que contém alma possui características próprias, entre elas a sensibilidade ativa, uma força que se distingue da força inerte que só é possível com o movimento da matéria por pressão.
Matéria e sensibilidade são completamente compatíveis e indivisíveis. O todo é constituindo de pequenas partes que possuem as mesmas características, mantendo-se agregadas pela lei da continuidade, a matéria se uniria pela simpatia, unidade e identidade geral: “Convinde a divisão é incompatível com a essência das formas porque ela as destrói” (DIDEROT,2000b:p.160). Compreendemos que não cabe separá-los para considerar suas essências, se assim for, deixarão de ser alma e corpo, enquanto sensibilidade ativa, para serem outra coisa. Não cabe pensar suas essências, mas se são essenciais enquanto permanecem juntas.
Mas o ser sensível ainda não é o ser pensante. O ser pensante é possibilidade de “consciência de ter sido ele”, um ser sensível que retoma sua história, problematiza sua existência. Para isso, necessita da memória de suas ações. A atenção do enciclopedista não se centra exclusivamente no pensamento como fato distinto da matéria, nem no sentido, mas na memória como condição sine qua non do pensar e do existir. Voltemos a dar peso às coisas, a memória não se constitui sem os sentidos e sem os movimentos orgânicos. Um gênio se tornaria um estúpido sem os seus sentidos e memória (DIDERTO, 2000b:p.206). O filosofo sempre retoma a condição material, a orgânica, mas sem privilégios; sem reduzir uma coisa a outra. A condição material dá substancialidade ao pensamento abstrato, que não passam de signos da linguagem, não existem idéias abstratas se não da experiência, afirma Diderot:
(...)Quando, após uma longa combinação de signos, pedis um exemplo, não exigis de quem fala outra coisa exceto que dê corpo, forma, realidade, idéia ao rumor sucessivo de seus acentos, aplicando a isso sensações experimentadas. (DIDEROT, 2000c:p.208).
No Sonho de D´Alembert (2000) apresenta-se três personagens que demonstram a coerência metodológica proposta na obra Da interpretação da natureza (1989). A primeira, a figura do filósofo, que exercita a reflexão manifesta em sonho. O sonho é um elemento importante na obra de Diderot, a verdade se oferece em imagens, de forma caótica, mas repleta de energia. A figura do médico, que pontua com as observações empíricas necessárias, trazendo a reflexão filosófica à utilidade, estabelecendo ou tentando estabelecer uma ordem material. Por último, a Senhorita de L´Espinasse - o senso-comum -, fica confusa, porém curiosa com a relação entre a filosofia e a medicina, então exclama: “...posso pois assegurar agora à terra inteira que não há nenhuma diferença entre um médico que vela e um filósofo que sonha...” (DIDEROT, 2000: p.169). Também poderíamos entender: “posso pois assegurar agora à terra inteira que não há nenhuma diferença entre a ordem e o caos”. O saber se constitui enquanto experiência do corpo, “sensações experimentadas”, e para este deve servir. Dito de outra forma, é o nosso corpo e o nosso sentido que tentam atribuir ordem as coisas.
Analisemos agora sobre o foco de dois romances a condição indistinta do corpo e da alma. É neste estilo que o acento recai sobre a alma, mas o corpo nunca deixa de ser uma referência. Na obra Jóias indiscretas (s/d) é sobre o corpo que se estabelece o controle, mas é alma que assume as conseqüências, as mulheres são desprovidas de seus desejos, subjetividade e expressões. Ele não considera o corpo da mulher como um elemento insignificante e prestativo, mas sim, a mulher reconquistando, retomando o próprio corpo e desejo. Da mesma forma, na obra A Religiosa, o corpo da pobre Simonin é submetido a tanto sofrimento pela madre superiora que lhe foi retirado toda possibilidade de revolta. Enfim, quis por fim a sua vida, acabar com o seu padecimento, mas não foi possível, controlavam também a sua alma. Simonin desistiu no momento que percebeu que a sua morte era esperada e facilitada, “...na verdade, eu só vivia porque me desejavam a morte...” (DIDEROT, 1980:p.73). O seu corpo não reagia mais diante das experiências perversas as quais era imposto, nem mesmo de por fim aos seus padecimentos; por sua vez, a sua alma tinha apenas uma única revolta: manter-se viva enquanto a desejassem morta. Diderot se preocupa em fornecer à mulher a liberdade sobre o seu corpo, seja na condição de “libertina” ou para exercer a vocação celibatária. O respeito pelo limite do corpo do outro e a liberdade mostram-se fundamentais na ética diderotiana.
É o resgate da memória feminina, nestas obras, que se pretende estabelecer a “seqüência interrompida” na consciência. Como já dito, a memória é um aspecto fundamental da existência.
Poderíeis dizer-me o que é a existência de um ser sensível, em relação a si próprio? É a consciência de ter sido ele, desde o primeiro instante de sua reflexão até o momento presente. E no que se baseia essa consciência? Na memória de suas ações. E sem essa memória? Sem essa memória ele não existiria, pois, sentindo a sua existência apenas no momento da impressão, não teria história alguma de sua vida. Sua vida seria uma seqüência interrompida de sensações que nada ligaria. (DIDEROT, 2000: p.156)
A sensibilidade e a memória são duas condições físicas indispensáveis para constituir o ser inteligível. Toda sensação, dentro ou fora, atravessa a fibra nervosa e nela tem que permanecer como uma condição do ser inteligível. Do movimento do corpo que se percebe a alma, do corpo presente que se percebe a ausência. No capítulo XXIX das Jóias indiscretas, Diderot se dedica a falar sobre as almas. O título “Metafísica de Mizorza”, já é um gracejo do filósofo, que falará da alma apontando para o corpo. Mizorza oferecendo seriedade ao momento - apresentar uma lição de filosofia - coloca as vestes pretas, achando estar vestida de um filósofo, “quando na verdade estava fantasiada de morcego” (DIDEROT, s/d :p.149), mais uma zombaria para criticar a sisudez filosófica.
Neste capítulo Mizorza descreverá o percurso ou as moradias da alma – substância diferente do corpo. A alma transita pelo corpo de acordo com a importância e relevância para o ser humano. A cabeça não seria moradia exclusiva da alma, a não ser àqueles que dela fazem excessivo uso; Diderot dedica um certo desprezo por estes, “chamamos estes de homens duros, ingratos, velhacos e cruéis” (DIDEROT, s/d:p.155). O ser humano é o uso que faz do seu corpo, dito de oura forma, a parte que a alma habita:
(...) Ela anda, ela viaja, deixa um lugar, volta e deixa-o novamente. O que sustento é que os demais membros são sempre subordinados àquele em que habita. Isto varia com a idade, temperamento, conjunturas. Daí nascem a diferença dos gostos e a diversidade de inclinações e de caracteres. (DIDEROT,s/d:p;154)
A metafísica de Mizorza submete a alma a uma ordem biológica, fisiológica, fácil de constatar que é uma oposição a metafísica dualista, da res cogitans e da res extensa como substância independentes uma da outra. Contudo, não é uma brincadeira de imagens, como defende Matos (1996:p.235); é como no sonho que no lugar da palavra oferece imagens, uma outra forma de linguagem para dizer a mesma verdade. Na tentativa de desqualificar a metafísica exposta, Selim – personagem de pouca importância - apela para o ideal da natureza descrita pelos sábios. Mizorza, completamente tomada pela sua lição de filosofia, expressa:
(...) Deixemos para lá os sábios e suas sentenças bombásticas – (...). – Quanto à natureza, consideremo-la apenas com os olhos da experiência. Aprenderemos, assim, que ela colocou a alma no corpo do homem, como num grande palácio; de que ela nem sempre ocupa o mais belo aposento. (DIDEROT, s/d: p.155)
Na relação com a política, Diderot entendia que o Estado controlava diretamente o corpo do indivíduo, com o uso da moral e das leis, e aplicava punições legais para que pudesse ter um efeito moral sobre o corpo social. Isso é demonstrado no Suplemento à Viagem de Boungainville, quando relata o caso de uma mãe solteira que foi julgada publicamente na Inglaterra. Para superar tais condições o filósofo entedia que a razão era um instrumento para superar os obstáculos impostos pela lei e religião. Treinar os sentidos para que pudessem perceber o Estado da sua condição de invisibilidade, tudo observa, mas não é observado. Assim como na obra Jóias indiscretas, na qual o anel, fornecido pelo Gênio Cucufá, permitiu poder de invisibilidade e transporte, deslocando Mangogul – a figura do Estado - para os lugares que assim desejava. A curiosidade sobre o corpo não se esgota no sexo, mas na revelação das bijous (do corpo) sobre situações que interessavam ao Estado, como na legitimidade de um pedido de pensão encaminhado ao Estado ou para apurar o delito de estupro regido sobre severas leis.
Por fim, acreditamos a quem tenta se dedicar a Diderot, teria que se permitir está entrega ao seu modo de pensar; se não vão ser como sábios de “sentenças bombásticas”, onde tudo enxergam símbolos que falam de outras coisas, enquanto as imagens oferecidas falam por si próprias. Com isso, nossa maior pretensão neste trabalho de investigação, é analisar a complexidade da relação corpo e alma, seu dinamismo, seus problemas como fundamentais para se pensar a subjetividade do homem. “Diderot, que, entre os pensadores do século XVIII, possui sem dúvida o faro mais aguçado para todos os movimentos e transformações do seu tempo, observa que o século parece ter atingido um ponto particularmente crítico” (CASSIRER, 1994:p.109) Se por um lado expõe o corpo/alma como força motriz do subjetividade humana, essa força é manifestada, limitada e ganha forma na sociedade. Fora do social é uma força difusa e sem expressão, no seu aspecto mais animal de repetição de ciclos, sem poder criativo.
4. ABORDAGEM METODOLÓGICA
No decorrer do presente projeto, é imperativo aprofundar determinados aspectos teóricos vinculados com a temática central do mesmo. O caminho metodológico estará baseado fundamentalmente numa pesquisa bibliográfica operacionalizado pelo método lógico-dedutivo.
Algumas dificuldades se apresentaram ao estudar um autor como uma linguagem irônica, vulgar, debochada, poética, sempre passível de risco. Satírico por excelência. Com o intuito de reduzir os riscos serão inevitáveis comparações constantes e incansáveis dos comentadores especialistas do autor. As obras completas de Diderot serão estudadas, por entendermos que não é momento de criarmos prévias seleções, até porque seu pensamento não se encontra plenamente sistematizado por temas. Contudo vai ser necessário um estudo cuidadoso sobre estilo de escrita, dado importante, que pode cifradamente oferecer muitas respostas e evitar muitos enganos. À moda do garimpo, buscar-se-á peneirar, isolar os elementos que enriquecem o debate sobre a relação corpo e alma no autor.


7. REFERÊNCIAS
BADIOU, Alain. O ser e o evento. Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, Editora UFRJ, 1996.
CASSIRER, Ernst. A filosofia do Iluminismo. Tradução Álvaro Cabral. 2 ed. Campinas, São Paulo: Editora da UNICAMP, 1994.
CHOUILLET, J. Diderot poète de l´Energie. Paris, PUF, 1984.
DECARTES, René. Discurso sobre o método. Tradução Maria Ermantina Galvão G.Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
DEPRUN, J. “Diderot devant l´idealisme”. Revue Internationale de Philosophie, 148-149, fasc. 1-2, 1984.
DELON, M. L´idée d´énergie au tournant des lumiéres. Paris: PUF, 1988.
DIDEROT, Denis. Jóias indiscretas. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Global Editora.
_______________. Cartas sobre os cegos. In: DIDEROT: Obras I, Filosofia e Política. Org. J.Guinsburg. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000a.
_______________. Diálogo entre D’Alembert e Diderot (1769). In: DIDEROT: Obras I, Filosofia e Política. Org. J.Guinsburg. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000b.
______________. O sonho de D’Alembert (1769). In: GUINSBURG, J. (Org. e Trad.) DIDEROT: Obras I, Filosofia e Política. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000c.
______________. Continuação do diálogo (1769). In: GUINSBURG, J. (Org. e Trad.) DIDEROT: Obras I, Filosofia e Política. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000d.
______________. Suplemento à viagem de Boungainvillet (1772). In: GUINSBURG, J. (Org. e Trad.) A Filosofia de Diderot. São Paulo: Ed.Cultrix, 1966.
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______________. Dos autores e dos críticos. In: GUINSBURG, J. (Org. e Trad.) A Filosofia de Diderot. São Paulo: Ed.Cultrix, 1966.
_____________. A Religiosa (1760). Tradução Antônio Bulhões e Miécio Tati. São Paulo: Ed. Victor Civita, 1980.
_____________. Discurso sobre a poesia dramática. Tradução L.F.Franklin de Matos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.
____________. Da interpretação da natureza e outros escritos. Tradução Magnólia Costa Santos. São Paulo: Editora Iluminuras, 1989.
___________. Jacques, o fatalista. Tradução de Antônio Bulhões e Miécio Tati . São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1962.
___________. O sobrinho de Rameau. Tradução de Antônio Bulhões e Miécio TAti. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1962.
FIGUEIREDO, Luís Cláudio. Matrizes do Pensamento Psicológico. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.
FOUCAULT, Michael. História da Sexualidade I, A vontade de saber, tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J.A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
GUINSBURG, J. (Org. e Trad.) A Filosofia de Diderot. São Paulo: Ed.Cultrix, 1966.
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HEIDBREDER, Edna. Psicologias do Século XX. Tradução de Lauro S.Blandy. 5ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1981.
HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA, 3: da Renascença ao Século das Luzes/ Coleção dirigida por Philippe Ariès e Georges Duby; tradução Hildergard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
JAUSS, H.R. Le neveu de Rameau. dialogue et dialectique (ou, Diderot lecteur de Sócrates et Hegel lecteur de Diderot). Revue de Metaphysique et de Morale, 89, 1984.
LEBRUN, Gérard. Sombra e luz em Platão. In: O Olhar. Org.Adauto Novaes e al. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
MATOS, Luiz F. Franklin de. Livre gozo e livre exame – ensaio sobre Les bijous indiscrets de Diderot. In: NOVAES, Adauto (Org.) Libertinos Libertários. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
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PLATÃO. A república.Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Editora Martin Claret, 2001.
ROMANO, Roberto. Corpo e Cristal: Marx romântico. Rio de Janeiro: Guanabara, 1985.
_______________. Lux in tenebris: meditações sobre filosofia e cultura. Campinas: Editora da UNICAMP;São Paulo: Cortez, 1987.
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_______________. Mal-estar na modernidade: ensaios. São Paulo: Cia das Letras, 1993.
SEZNEC, J. Essais sur Diderot et l´antiquité. Oxford, Clarendon Press, 1975.

Comportamento PSI

Um homem entra num restaurante e vê uma mulher muito bonita sozinha numa mesa. Ele se aproxima e pergunta: - Estou vendo você sozinha nessa mesa. Posso sentar-me e fazer-lhe companhia???? Escandalizada a mulher berra: - Seu mal-educado !!!! Trepar comigo ???? Você acha que eu sou o quê??? O restaurante todo ouviu. O rapaz, não sabendo onde pôr a cara tenta consertar: - Eu só queria lhe fazer companhia, mais nada. - E você insiste !!!! Atrevido !!!! O rapaz sai de fininho, e vai sentar-se no outro canto do restaurante, cabisbaixo. Depois de alguns minutos, a mulher se levanta e vai até a mesa dele e diz: - Me desculpe pela forma como eu o tratei. É que sou psicóloga e estou estudando as reações das pessoas em situações inusitadas. - E o homem berra: - MIL REAIS??????? VOCÊ ESTÁ LOUCA!!!!!!! NENHUMA PUTA VALE ISSO!!!!!!

O projeto de Diderot que nunca se realizou


TEMA: A influência do pensamento de Diderot para as psicologias.
APRESENTAÇÃO DO TEMA
O presente trabalho se propõe a realizar uma investigação do pensamento de Denis Diderot que, independente do rótulo empirista-materialista, influenciou a psicologia moderna. A pretensão é analisar os liames da filosofia experimental iluminista que influenciou a ciência psicológica; abordando, especificamente, a complexa proposta diderotiana de conhecimento, subjetividade, corpo/alma, explicação fisiologista sobre o comportamento humano. Questões importantes foram colocadas por Diderot no campo do conhecimento e do humanismo ligadas à filosofia materialista. O autor realiza uma reflexão considerando a totalidade do corpo, propondo o novo olhar sobre a matéria, experiência e o conhecimento. O corpo, em toda sua complexidade, é o fundamento do materialismo diderotiano; é nele que se realiza seu ideal, também, político: da educação para as massas.
Foram as linhas filosóficas, sobretudo empírica, que definiram a metodologia psicológica; portanto, para entender a prática em psicologia é necessário reconhecer as matrizes filosóficas. Diderot é fundamental para esta investigação, pois seu pensamento incessante e impetuoso, não se acomodava aos resultados obtidos e a filosofia da época, propondo modificações importantes, que o levavam do materialismo ao panpsiquismo dinâmico ou vive-versa (CASSIRER, 1994:p.107). Contribuindo, assim, no sentido de colocar a psicologia na condição de vulnerabilidade do saber, ao mesmo tempo, riqueza reflexiva; permitindo que as pessoas percebam o corpo em movimento, assim como as idéias. Sejam nas raízes experimentais do Behaviorismo, no pansexualismo freudiano, o estudo da percepção gestáltica, na realidade pessoal da psicologia humanista, encontra-se o germe diderotiano.

Livre reflexões de alguma peça de Nelson Rodrigues

Este texto foi uma leiitura psicanalítica de algumas peças de Nelson Rodrigues, realizada por Martuscello. Não posso dizer que é a melhor ou pior, mas é uma tentativa, prefiro ver Nelson através dos arquétipos, mas vamos ao que o autor disse:

Cap. 2 A Mulher gosta de apanhar
O autor introduz com a introdução de um novo conceito: Falo sob a perspectiva feminina.
- A mãe “faz” com o filho um tipo de interação psicológica em que ele fica significando para ela aquele que a completa e a preenche totalmente e que lhe dá a sensação de que nada falta.
- Lacan (um dos teóricos mais importantes da psicanálise), nesse momento o bebê passa a ser o falo que falta à mãe e esta se sente a mãe fálica por possuí-lo. É a então famosa frase de Freud “a mulher tem inveja do pênis”. Ora, mas o que vem a ser o FALO.
- Lacan dirá "o Falo não é representável". A interpretação tem como ponto de partida o complexo de édipo e a variação de seus tempos em função de como os personagens ficam situados em relação ao falo.
1º momento – o menino é o falo da mãe sem o saber. A mãe fálica.
2º momento – a mãe e o filho deixam de ser e ter o falo, e passa a ser o pai.
3º momento – o falo fica inserido na cultura e além de qualquer pessoa.

Este pai, este interdito do amor anterior mãe-filho, se instaura no inconsciente e passa a representar a lei interditante. Pai simbólico que fez a defusão do amor materno e instaurou o filho na cultura, pois o menino já introjetado a lei interditante aceitará as regras da sociedade e o que ela regulamenta. Ele obedece aquilo que é social.
Não precisa existir um pai real, são representações simbólicas.
Quando isso não acontece, o que ocorre? A mulher permanece sendo a mãe fálica, que exclui o homem como falo e, logo, exclui o falo como localizado na instância cultural que a submete. Então o falo vai ser sempre o filho. Não necessariamente, qualquer coisa que complete o sentido de lhe garantir plenitude e auto-suficiência narcisica equivalente à que ela obtém na relação com o filho.
Quanto menos a mulher aceite a inclusão do homem em sua relação com objeto tornado falo, tem que haver uma presença muito mais marcante do pai real para se tornar pai simbólico. A insistência da mulher neste processo de mulher fálica obviamente exlclui o homem, retira o seu falo. Isto obriga a exercer com força ou violência o pai interditor para recuperar seu poder de falo (não é incomum mulheres que apanham do marido sustentarem a família). Só que isto não justifica e nem explica todas as possibilidades psicológicas e sociais de violência a mulher.

Dorotéia
Em Dorotéia, Martuscello considera o jarro pelo sentimento de culpa de Dorotéia. Alguém saberia responder por que um jarro é sentimento de culpa, está no texto. O autor defende que o jarro é símbolo fálico, porque seria uma forma de perseguidor que lembra seu passado sexual. Na época que eu vi a peça de Roberto Salles, não entendia a presença de um ator nu. Tem muitas sutilezas do texto, em formas de imagem, que o ego não consegue captar. A interpretação que fiz, e que é uma das possibilidades para explorar a imagem é que o jarro representava o útero, a sexualidade, o feminino negado, pois negando o homem, estaria negando a si própria como mulher. Então, interpretações que se completam, naquela idéia dos pares de opostos. Se colocasse uma mulher nua, ou seja o extremo oposto, representaria a mesma idéia inicial de Roberto, de homem nu.
As mulheres de Dorotéia são obcecadas pelo sexo. O antagonismo desejo/irrupções está presente em todas, levando a satisfação sexual a fazer irrupções inesperadas e imprevisíveis.

Leituras arquetípicas
O nome das Dores (referência Nossa Senhora das Dores – que é a dor da separação do filho, Jesus. Não permitir a separação com o filho, ou colocar sob a condição fálica é do que estamos tratando). De forma muito sutil ele coloca laico o que é sagrado, ele transforma em alma aquilo que é espírito. Ele faz uma inversão de extrema importância psicológica, você não alcança o pico sem passar pelo vale de almas, ou você não alcança o lado espiritual sem prestar atenção as dores da alma, é o que Nelson de forma intuitiva realiza do início ao fim de sua obra.
Dorotéia e as viúvas são mulheres martirizadas pela culpa trazida pelo sexo, a punição e o castigo são o destino inexorável. O super-ego feroz, que impõe as leis da sociedade, não recua diante de nada. A morte do filho representou um aviso. Este suposto aviso proveio da exigência do super-ego, que a fez perceber que deveria sair daquele tipo de vida e se submeter a uma série de infortúnios para ingressar na família. A mulher acatando o rigor super-egóico e submetendo voluntariamente à repressão. O sentimento moral de culpa e de necessidade expiatória é comum a mulher no funcionamento emocional. Na peça Dorotéia não tem homem batendo, isso é interessante, mas ela própria engendra a punição. Exigências que mulher saia da sua condição narcísica ou fálica. Nelson coloca Dorotéia falando: “...sou tão linda que, sozinha num quarto, seria amante de mim mesma...”, narcisismo feminino, excluindo o homem. O importante para a mulher na peça não é o amor pelo homem, é a posse do falo como objeto de prazer. O homem é invisível e representando apenas o pênis através das botas. Ela deseja o falo, mas se repreende com o martírio do corpo, muitas vezes isso ocorre com o encontro com homens agressivos.

A Função do auto-conhecimento em Rousseau

Rousseau é festejado na filosofia como um pensador da política e da moral, e longos discursos surgem desta temática, na qual apresentam a doutrina do genebrino seguindo a fórmula da “natureza do governo”, a “natureza do corpo social”, a “origem do mal”, etc.. Não se esgota o esforço filosófico para pôr e contrapor os argumentos de Rousseau dentro de uma possível explicação da ordem social e política. Contudo, outras características iluministas podem ser exploradas em Rousseau, sem necessariamente, negar os projetos políticos. O que cautelosamente incluo no discurso rousseauniano é um enfoque que, inicialmente, chamo de ideal de auto-conhecimento.
A inspiração para este enfoque numa obra tão vasta, e numa leitura que nos seduz pela linguagem, apresenta-se logo no início da obra Emílio – “Tudo está bem quando saí das mãos do autor das coisas, tudo degenera entre às mãos do homem” (Emílio, p. 7). Como bem disse Cassirer (1994): “Deus é desculpado e a responsabilidade dos males cabe unicamente aos homens (...) A teória ético-política de Rousseau situa a responsabilidade num lugar onde, até então, ninguém imaginara sequer procurá-la”. Contudo, não é aceitável a conclusão de Casirrer ao negar a responsabilidade ao homem individual, e imputá-la a “sociedade humana”. Atribuindo uma abstração social que não é comum em Rousseau. A sociedade formar-se-á a partir da oposição de interesses particulares, e o acordo destes interesses no que é possível; ou seja, a vontade geral surge da comunhão de interesses particulares. Atribuir a sociedade, aquilo que é responsabilidade do homem, é retirar o peso que é devido ao indivíduo na condução dos seus sentimentos e pensamentos. Além disso, Rousseau explicitamente atribui uma relação entre homem e sociedade, e não cabe reduzir um ao outro, “é preciso estudar a sociedade pelos homens, e os homens pela sociedade; quem quiser tratar separadamente a política e a moral nada entenderá de nenhuma das duas” (Emílio, p.325). Contudo, o primeiro homem a ser fruto de observação é a si próprio, considera a sociedade ou o outro, como responsáveis pelos problemas do grupo, é evitar solução práticas e desviar do alvo.
O autoconhecimento, neste trabalho, será tomado em duplo sentido: na dicotomia entre razão e consciência. O primeiro destes sentidos é o conhecimento do homem, tendo a razão como um instrumento de aquisição de verdade sobre si próprio e sua relação com o meio e com o outro. Do ser que se questiona do lugar que ocupará na sociedade, pois este julgamento irá marcar o seu caráter através da prevalência de “paixões doces ou cruéis” (Emilio, p.324). Poderia dizer que o autoconhecimento do homem na sociedade dá-se através da razão, na capacidade do homem tem de distinguir, comparar e julgar. Anterior a este estar no mundo, é preciso tomar o autoconhecimento como um retorno aos sentimentos mais íntimos e inatos, condição só possível através da consciência. Como bem poetiza Rousseau uma voz interna capaz de ouvir no fundo do coração do homem os desígnios divinos. Retorno ao sentimento interior será capaz de determinar o estado de natureza ou o homem essencial como bem explica Guéroult1:
“¿Como determinar esse estado de naturaleza u hombre essencial? Dirigiéndose al sentimiento interior no adulterado, descartando todo lo adventício e perverso que há podido intoducir la vida social, escuchando la zvoz de la pura conciencia, que es la voz misma de la naturazela” (p.149)
e
O autoconhecimento permite um equilíbrio entre o sentimento e a razão, enquanto faculdades indispensáveis para o homem civil. Percebe-se que o autoconhecimento, sociedade, religião e ciência não estão dissociados na filosofia de Rousseau, cabe então estudá-los profundamente e suas relações. Rousseau não se restringe ao sensualismo do século XVIII, tal como Hume. Aproxima-se muito mais de Condillac que “insiste na simplicidade da natureza da alma, onde se deve procurar, (...) o verdadeiro sujeito da consciência” (Cassirer, 1994). Não se restringe, mas não deixa de ter o espírito sensualista da época, côo revela o excerto abaixo:
“Com tudo o que entra no entendimento humano vem pelos sentidos, a primeira razão do homem é uma razão sensitiva; é ela que serve de base para a razão intelectual: nossos primeiros mestres de filosofia são nossos pés, nossas mãos, nossos olhos” (Emílio, p.148)
Rousseau, filósofo estrangeiro, revela sobre seus pares e sobre si: “ Aí estão, estrangeiros, desconhecidos, nulos em definitivo para mim, porque assim eles o querem. Mas eu, separado deles e de tudo, Quem sou? Isto é o que me falta descobrir” (Premiére promenade, p.1). É como existisse um ser além da vida moral, e revela logo adiante “O hábito de entrar em mim próprio, me fez perder o sentimento e quase a lembrança do mal, aprendi ainda pela minha própria experiência que a fonte da felicidade está em nós” (Seconde promenade, p.5). Lévi-Strauss abordou este “quem sou?” como um “Eu” epistemológico no qual Rousseau expressa que existe um outro de que se pensa em mim, e que me faz duvidar em primeiro lugar de que sou eu o que pensa. Esta tarefa só é possível, pois as respostas a esta pergunta não seria tão somente do cogito cartesiano, mas do ser que se sente. Assim expresso no Emílio: “Para nós, existir é sentir; nossa sensibilidade é incontestavelmente anterior à nossa inteligência, e tivemos sentimentos antes de ter idéias” (Emílio, p.410). Rousseau torna o “eu” tão certo de si, objeto estranho, não familiar, passível, como qualquer outro objeto, de pesquisa.
Um sujeito que foi moldado dentro de certas estruturas de educação e sociedade não poderia estar tão certo de si, já que o processo de aprendizagem foi alvo de severas críticas por Rousseau. Além das questões já apresentadas, propõe um conhecimento ou reflexão do processo educativo; que em última análise, considerando os homens prontos, já formados pelo sistema, seria uma crítica do próprio aprendizado. O que é educar? Para que? E para quem? Questionando os modelos de aprendizagem, que seria questionar a nós próprios enquanto pessoas constituídas de modelos viciosos.
A razão em Rousseau distingue o bem, mas não é capaz de amá-lo. Só a voz interior ou a consciência é capaz de tal ato; e não tem outro meio, é preciso voltar para dentro de si, “quanto mais me consulto, mais leio estas palavras escritas em minha alma: Sê justo e serás feliz”. Mas de que forma poderia relacionar a justiça que teria comigo mesmo, a justiça que poderia ter com um outro? Ser justo comigo, é diferente de ser justo com o outro. Aquilo que pressuponho justiça para mim, pode não ser para o outro. De que forma Rousseau resolve estas questões no seu processo de autoconhecimento. O sentimento de justiça é um determinante social ou é um sentimento intermediado pela piedade?

do corpo físico ao corpo moral - Rousseau

Emílio ou da Educação
Ensaio do corpo físico ao corpo moral.
Livro I
Rousseau expõe que a entrada do homem na sociedade, ou se afastar do estado da natureza, sem uma proposta educativa é lançá-lo a própria sorte. A sociedade teria um aspecto antropofágico, “as instituições sociais em que estamos submersos abafariam nele a natureza, e nada poriam em seu lugar” (Livro I, p.7), que estaria mais de acordo aos interesses pessoais do que aos coletivos. Torna-se claro desde o início uma crítica a inserção do homem na sociedade e uma proposta de educação com alvo na criança, mas almejando acertar o homem e o cidadão – “Tudo o que não temos ao nascer e de que precisamos quando grandes nos é dado pela educação”(I, p.9).
A sociedade no pensamento de Rousseau é levada despida da sua arrogância até ao homem, e nada mais é do que uma criação do homem, e a este deve os acertos e erros; de tanto olhar aquele corpo nu, percebemos o que estava diante de nós foi um espelho. A sociedade, assim vista por Rousseau, não é um elemento, uma coisa ou uma personificação em disputa com o homem; empenha-se o filósofo em demarcar a condição social intrinsecamente presa à condição humana. E para isso ele vai à molécula originária deste corpo social: a criança.
Se em Emílio pretende-se uma utopia, acaba por enfatizar o quão difícil é educar uma criança no sentido de ser dona de si. Não há ingenuidade no pensamento de Rousseau, coloca com muita clareza os percalços da educação e declara – “Tudo o que podemos fazer à custa de esforços é nos aproximar mais ou menos do alvo, mas é preciso sorte para atingi-lo” (I, p.9). Desta forma, há três tipos de educação, da natureza ou dos homens ou das coisas. A educação da natureza é o desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nossos órgãos, que segundo Rousseau, não depende de nós. A dos homens o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento, a única que somos senhores. A das coisas, aquisição de nossa própria experiência sobre os objetos que nos afetam, depende de nós em alguns aspectos.
O alvo a que se refere Rousseau é o mesmo da natureza, e a qual deve se dirigir as outras duas. Quanto mais afasta os homens dos hábitos sociais, mas descobre em sua essência e unidade. As instituições sociais fragmentam este homem, e o transferem para uma unidade comum, ele se percebe agora como parte de uma unidade. O que Rousseau coloca em questão é o sentido da subjetividade, do eu tão presente no estado de natureza, e agora imperceptível agora no corpo social. Mais uma crítica as formas de relações sociais que descaracterizam o indivíduo a favor do coletivo. É revelada a problemática entre educar um homem ou um cidadão, aparentemente em plena oposição. Se a essência, o homem absoluto encontrava-se na natureza, este se perdeu na ordem civil, não há espaço para os dois. Quem assim insistir, não será nada. Rousseau expõe que o caminha da educação proposta não será social, o seu ensino estará preparando para a vida humana. Qualquer cargo social aos olhos de Emílio seria ocupado sem distinção, preconceitos ou hierarquias, nota-se que a educação que se pretende independe da condição ou status social, dando-lhe um caráter universal, e optando por uma das oposições, é preciso educar o homem antes do cidadão. “Viver é ofício que quero ensinar-lhe (...) Ao sair de minhas mãos, concordo que não será nem magistrado, nem soldado, nem padre; será homem, em primeiro lugar.” (I, p.15). E qual o intento destes esforços, se a sociedade mudasse, não mudasse o homem junto, ou suas disposições naturais do bom e justo. Rousseau é um grande defensor da moral diante dos vícios éticos e um dos primeiros pensadores a entender que educação se dá mais pelo exercício do que pelas teorias.
Contrário do que possa se imaginar a busca desde homem em si, não é uma educação egoísta, fechada e impenetrável ao mundo. Porém, preparar esta criança para as adversidades da vida, para “as mobilidades das coisas humanas”, e não como se nunca tivesse de sair do seu quarto, diz Rousseau (I, p.16). Ou seja, o fim último da educação do homem serão o cidadão. Para isso, é preciso ensiná-lo a se conservar enquanto homem, e tomar o sentimento de existência: agindo, fazendo uso dos seus órgãos, sentidos e faculdades. Este sentimento se perdeu na sociedade pois impede o homem de expressão, de mobilidade, de opinião, e isto é expresso de forma muita poética, na criança que ao nascer é envolta em panos e bandagens, “não lhe permitem mudar de opinião” (I,.p.17). De forma extremamente habilidosa Rousseau expressa os componentes filosóficos e educativos ao mesmo tempo; a crítica a sociedade no processo de desnaturação e perda de subjetividade e um novo modelo tendo como guia o natural, e o primeiro estágio de aplicação do seu método, passa pelo corpo, este que está em contato com a natureza, os órgãos, os sentidos.
O corpo que entra em contato com os objetos, e ele que se exercita no mundo. Impedir o desenvolvimento natural do corpo,é impedir o desenvolvimetno natural do homem. Rousseau mostra-se espetacular ao demonstrar que é sobre o corpo que recai os primeiros moldes da educação social, que para perspectiva do filósofo basta retirar os obstáculos que o impede desenvolver e entregá-lo ao maior de todos os mestres – a natureza.